Cirurgia intrauterina salva bebê com intestino exposto

Uma gestante residente em Londres, no Reino Unido, passou por um procedimento cirúrgico inovador nos Estados Unidos, que possibilitou a correção de um defeito congênito em seu filho antes do parto.

Com 29 anos, Maisie Savage foi submetida à cirurgia quando estava com 26 semanas de gestação. O bebê, chamado Theo, apresentava gastrosquise complexa, uma condição em que a parede abdominal não se fecha adequadamente durante o desenvolvimento fetal, resultando no crescimento do intestino fora da cavidade abdominal.

Theo se tornou o primeiro bebê britânico a ser operado ainda no útero para tratar essa condição, participando de um estudo clínico pioneiro que visa abordar a gastrosquise complexa antes do nascimento. Ele é o terceiro bebê globalmente a fazer parte desse estudo. Nascido em fevereiro no Texas, EUA, hoje Theo tem cinco meses e veio ao mundo por parto normal.

Entendendo a gastrosquise e a gravidade do caso de Theo

  • A gastrosquise afeta anualmente cerca de um em cada três mil recém-nascidos no Reino Unido. Mesmo nos casos menos severos, os bebês podem necessitar de longas internações em unidades de terapia intensiva neonatal (UTI), além de alimentação por sonda ou intravenosa e intervenções cirúrgicas;
  • Nos casos mais complicados, como o de Theo, a estadia na UTI pode se estender por até seis meses. Os pacientes frequentemente requerem múltiplas cirurgias, nutrição intravenosa por até dois anos e, em algumas situações, transplantes intestinais. Apesar do atendimento médico avançado, cerca de 10% dos bebês nessa condição não sobrevivem;
  • Os pais de Theo não tinham conhecimento sobre a anomalia durante a gestação. “Na consulta das 20 semanas, estávamos ansiosos apenas para visualizar nosso bebê”, compartilhou Josh French, 36 anos e professor. “Naquele momento, nem sabíamos que seria um menino”.
  • French descreveu o diagnóstico como um choque e uma experiência “extremamente aterradora”.

A jornada até a cirurgia inovadora

Quando Savage estava com 24 semanas de gestação, os médicos do Great Ormond Street Hospital em Londres já preparavam os pais para os desafios que Theo enfrentaria nos primeiros meses após o nascimento. Diante do diagnóstico da forma mais severa da doença, os profissionais indicaram a transferência para o Hospital Infantil do Texas em Houston.

No local, uma equipe especializada em cirurgia fetal e pediátrica coordenada pelo Dr. Michael Belfort realizava o estudo clínico. Belfort já havia sido responsável por procedimentos semelhantes no útero para tratar espinha bífida.

Savage foi informada sobre a necessidade urgente de viajar ao Texas e permanecer lá até o término da gestação. “Foi uma decisão muito impactante”, relatou ela. Como parte do protocolo do estudo clínico, sua primeira viagem foi ao Hospital de Leuven na Bélgica, onde especialistas aplicaram uma injeção de Botox através do útero na parede abdominal de Theo para relaxar os músculos e facilitar a cirurgia subsequente.

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Execução da cirurgia

A intervenção ocorreu em novembro do ano passado. Os médicos expuseram parcialmente o útero para reposicionar o feto; drenaram o líquido amniótico e insuflaram dióxido de carbono (CO₂) no útero para aumentar o espaço disponível. Utilizando técnicas minimamente invasivas, os órgãos de Theo foram recolocados na cavidade abdominal e suturados.

Savage ficou com uma cicatriz maior que duas vezes a de uma cesariana — ainda tendo 14 semanas pela frente na gestação. Muitas vezes, Theo chutava contra a cicatriz causando desconforto à mãe. “A recuperação foi desafiadora. Contudo, fez valer a pena”, comentou ela.

French relatou que esperar durante todo o procedimento foi angustiante: “Aquele dia parecia durar uma eternidade. Foi extremamente difícil aguardar sem saber exatamente como as coisas estavam progredindo”.

Resultados e futuras etapas do estudo

Belfort avaliou positivamente os resultados: “A mãe e o bebê estão bem; a cirurgia ocorreu perfeitamente; não houve complicações durante ou depois da operação fetal… tudo isso é simplesmente impressionante”.

Caso o estudo clínico tenha sucesso contínuo, Paolo de Coppi – professor de cirurgia pediátrica no Great Ormond Street Hospital e diretor do centro de pesquisa em células-tronco e medicina regenerativa da University College London – começará a realizar esse procedimento no Reino Unido.

“Esperamos poder disponibilizar esse tratamento para um número maior de pacientes muito em breve”, declarou De Coppi. Belfort expressou entusiasmo pela colaboração entre as duas instituições.

O médico também mencionou amplas perspectivas para esse campo: “O interior do útero se tornou um novo terreno fértil para inovações cirúrgicas”, afirmou ele. “Espinha bífida e gastrosquise são apenas dois exemplos disso; acredito que num futuro próximo poderemos realizar cirurgias cardíacas ainda durante a gestação e intervenções pulmonares nos fetos”.

Em Londres, Savage revelou que Theo está saudável: “O que fizeram mudou completamente o rumo da história que poderia ter começado muito mais difícil. Hoje ele está ótimo; é essencialmente um bebê normal”.

French acrescentou: “Nos sentimos extremamente privilegiados. Durante nossa estadia lá recebemos cuidados excepcionais que suavizaram um dos momentos mais traumáticos das nossas vidas. Agora temos nosso pequeno garotinho; não poderíamos estar mais felizes.”

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