Imagine a possibilidade de eliminar alguns dos efeitos do envelhecimento nos tecidos humanos. Um grupo de cientistas conseguiu desenvolver uma enzima que demonstrou sucesso na remoção de substâncias associadas ao desgaste celular em experimentos com amostras de tecido humano.
O artigo, publicado na revista Nature Communications, apresenta a CMLase, uma enzima projetada para diminuir os produtos finais de glicação avançada (AGEs), que são compostos que se acumulam no corpo ao longo do tempo.
Mudança de abordagem: reparar em vez de apenas prevenir
O processo de envelhecimento envolve várias transformações químicas. Uma das mais significativas é a acumulação dos AGEs, que se formam quando açúcares reagem com proteínas e lipídios no organismo.
A formação desses compostos assemelha-se ao que ocorre quando um bolo fica dourado durante o cozimento. Com o passar do tempo, essas substâncias podem tornar estruturas como o colágeno mais rígidas e estão ligadas a inflamações associadas a doenças cardíacas, problemas oculares, doenças renais e diabetes.
Cientistas passaram anos tentando desenvolver medicamentos para impedir a formação dos AGEs, mas com resultados limitados. A nova abordagem proposta pelos pesquisadores visa eliminar esses compostos após sua instalação nos tecidos.
“O envelhecimento é um fenômeno complexo. Essa é uma pequena contribuição para um avanço maior,” comentou Aaron Cravens, fundador e CEO da Revel Pharmaceuticals e principal autor do estudo.
Colaboração com inteligência artificial na descoberta da enzima
No intuito de encontrar uma solução inovadora, os pesquisadores se inspiraram em microrganismos que fazem parte dos processos naturais de decomposição. Eles levantaram a hipótese de que esses organismos poderiam conter mecanismos capazes de quebrar moléculas altamente resistentes.
A equipe utilizou inteligência artificial para examinar o DNA de mais de 50 mil micróbios e identificar quais enzimas poderiam combater os AGEs. Após diversos ciclos de refinamento, chegaram à CMLase.
Os principais achados da pesquisa incluem:
- a eliminação dos AGEs em amostras reais de tecido humano;
- a melhoria nos níveis dessas substâncias em estruturas afetadas pelo envelhecimento;
- a redução das marcas relacionadas ao desgaste celular;
- o potencial para aplicação futura em doenças ligadas à idade.
Em um dos testes mais notáveis, os cientistas relataram que uma amostra de pele com 70 anos apresentou níveis de AGEs semelhantes aos encontrados em pele de 30 anos.
Resultados animadores, mas novos testes ainda são necessários
Apesar dos resultados promissores, a enzima ainda não está disponível como tratamento. A próxima fase da pesquisa envolverá a avaliação da eficácia da CMLase em aplicações médicas, incluindo condições oculares relacionadas ao diabetes.
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John Baynes, bioquímico aposentado pela Universidade da Carolina do Sul, fez uma analogia entre o acúmulo dos AGEs e a ferrugem nos tecidos. “Ele se acumula nas proteínas como ferrugem,” esclareceu.
Embora não seja uma solução clínica ainda, essa prova de conceito abre novas possibilidades terapêuticas voltadas para a longevidade.
Michael C. Jewett, bioengenheiro da Universidade Stanford
Caso as próximas investigações confirmem tanto a segurança quanto a eficácia dessa tecnologia, a CMLase poderá ser explorada para tratar diversas condições ligadas ao envelhecimento. Por ora, essa pesquisa se destaca por sugerir uma abordagem inovadora: não apenas desacelerar o desgaste corporal, mas também tentar reverter parte dele.
