A Revolução da IA nos Computadores: Por Que a Maioria Ainda Não Notou?

A inteligência artificial (IA) emergiu como um dos principais atrativos no setor de tecnologia, especialmente na fabricação de computadores. Recentemente, empresas do ramo começaram a enfatizar a inclusão de unidades de processamento neural (NPUs) que visam acelerar as tarefas relacionadas à IA, além de anunciar melhorias em desempenho para recursos generativos e introduzir uma nova categoria de produtos: os PCs equipados com IA (ou AI PCs).

No entanto, essa revolução ainda parece não ter alcançado a maior parte dos consumidores. Embora esses dispositivos já integrem funcionalidades e recursos impulsionados por IA, a experiência cotidiana de uso continua bastante similar àquela oferecida pelos notebooks tradicionais.

Esse quadro suscita uma questão intrigante: se houve tanto avanço no hardware, por que a inteligência artificial ainda não transformou nossa maneira de utilizar os computadores?

De acordo com a Intel, a resposta reside mais na limitação do software do que nas capacidades do hardware. Carlos Buarque, diretor de marketing da Intel Brasil, comentou que o setor está em um estágio onde o avanço do hardware superou o desenvolvimento do ecossistema software capaz de aproveitar essas novas capacidades.

A empresa acredita que para que os PCs com IA se tornem populares é essencial o avanço das aplicações disponíveis — um processo que envolve também a inclusão desse tipo de hardware em notebooks mais acessíveis, estratégia essa que foi reforçada com o lançamento da linha Intel Core Series 3.

O que impede os PCs com IA de se popularizarem?

<pNa perspectiva da Intel, o principal obstáculo para a popularização dos PCs com IA não está mais no hardware. A companhia afirma que os computadores necessários para essa nova fase já estão disponíveis no mercado, mas o progresso na criação de softwares capazes de tirar proveito desses recursos ainda está aquém do esperado.

Os PCs equipados com IA são projetados para realizar tarefas relacionadas à inteligência artificial de maneira mais eficiente. Para isso, eles combinam três tipos distintos de processadores: a CPU, que cuida das funções gerais; a GPU, voltada para tarefas paralelas como gráficos; e a NPU (unidade de processamento neural), especializada em operações de IA com maior eficiência energética.

Carlos Buarque argumenta que o desafio atual é que esse hardware ainda não encontrou um ecossistema robusto de softwares capaz de justificar para muitos consumidores a atualização do computador.

Estamos diante do dilema do ovo e da galinha. O desenvolvedor questiona: ‘Para quem vou desenvolver?’. E o consumidor responde: ‘Por que eu compraria um novo computador se não há aplicações que utilizem isso?’

Carlos Buarque, diretor de marketing da Intel Brasil

Buarque acredita que esse cenário deve mudar à medida que os PCs com IA se tornem menos restritos aos modelos premium e alcancem um público mais amplo. Segundo ele, esse movimento pode estimular desenvolvedores a criar novas aplicações visando esse tipo específico de hardware, aumentando assim o interesse entre os consumidores.

Por que a IA ainda não conquistou os consumidores?

Carlos Buarque observa que o surgimento de novas tecnologias geralmente segue padrões semelhantes em diversas indústrias. Ele compara a evolução dos PCs equipados com IA ao setor automotivo, onde inovações oriundas das categorias mais avançadas, como a Fórmula 1, inicialmente aparecem nos veículos mais caros antes de serem incorporadas em modelos acessíveis ao público geral anos depois.

Ele explica também que esse padrão ajuda a entender por qual razão as funcionalidades relacionadas à inteligência artificial tiveram seu início em notebooks high-end. Atualmente, segundo Buarque, espera-se que esse tipo de hardware comece gradualmente a ser incluído em uma gama mais ampla de preços, ampliando assim sua base de usuários e criando um ambiente propício para desenvolvedores.

No entanto, esse processo não implica necessariamente que os consumidores farão upgrade apenas porque novos modelos possuem uma NPU ou prometem melhor desempenho em tarefas relacionadas à IA. Para Buarque, as decisões continuarão sendo impulsionadas por aplicativos capazes de demonstrar vantagens práticas no cotidiano.

Exemplos dessa transformação já podem ser observados. Em videoconferências, funcionalidades como remoção de ruído e desfoque ao fundo podem ser realizadas diretamente pelo computador. Em programas de edição gráfica, ferramentas como preenchimento generativo e remoção automática de objetos tendem a se beneficiar da execução local das operações baseadas em IA. Nos jogos eletrônicos, espera-se também que personagens controlados por computador (NPCs) passem a utilizar modelos inteligentes para criar interações mais fluidas.

Um jogador vai querer adquirir um AI PC quando houver jogos otimizados para isso. Da mesma forma, criadores de conteúdo terão incentivo para optar por um AI PC quando seus softwares tirarem melhor proveito dos recursos disponíveis para edição audiovisual.

Carlos Buarque, diretor de marketing da Intel Brasil

A estratégia da Intel para aumentar sua base usuários inclui o lançamento da linha Intel Core Series 3, sendo esta a primeira família da série Intel Core — fora da linha Core Ultra — capaz de integrar CPU, GPU e NPU em uma única plataforma. A expectativa é que este novo tipo de hardware chegue aos notebooks mais acessíveis e estimule o desenvolvimento adicional dessas aplicações.

Conviverão IA local e nuvem?

A popularização dos PCs equipados com IA não implica necessariamente na substituição dos serviços baseados em nuvem pelos modelos locais. Carlos Buarque defende uma abordagem híbrida para o futuro da inteligência artificial, onde cada método será mais adequado conforme o tipo específico da aplicação.

De acordo com Buarque, serviços como chatbots e assistentes virtuais continuarão dependendo da nuvem. Por outro lado, tarefas sensíveis ou aquelas que exigem baixa latência poderão ser processadas diretamente nos dispositivos locais. Exemplos incluem análise financeira ou médica e sistemas industriais voltados ao controle visual em fábricas.

“Acreditamos firmemente que todas as aplicações relacionadas à inteligência artificial serão híbridas”, explica ele. “Existem diferentes tipos onde faz sentido operar localmente enquanto outras exigirão processamento externo devido à performance.”

Na prática, caberá aos desenvolvedores determinar onde cada parte do processamento será feita. Aspectos como desempenho desejado, custos envolvidos e privacidade influenciarão quais tarefas serão executadas localmente e quais permanecerão dependentes da nuvem.

O que falta para os PCs equipados com IA serem padrão?

Carlos Buarque aponta diversos fatores necessários para popularizar os PCs com IA. Além do amadurecimento do ecossistema software existente no mercado, ele menciona desafios relacionados ao custo e à disponibilidade dos componentes essenciais à fabricação desses equipamentos.

A crescente demanda por infraestrutura voltada à inteligência artificial resultou também em um aumento na busca por memória e outros componentes utilizados na montagem dos computadores. Isso tem contribuído para manter os preços elevados e dificultar a rápida incorporação desses recursos avançados nos modelos básicos.

Ainda assim, Buarque prevê uma expansão gradual na oferta desses PCs nos próximos anos à medida que a tecnologia evolui e começa a integrar notebooks em diferentes faixas comerciais. Para ele, essa tendência será acompanhada pelo surgimento contínuo de novas aplicações capazes convencer os consumidores sobre as vantagens reais dessa troca.

No Brasil essa transição deverá ocorrer lentamente também. O executivo ressalta que o país ocupa atualmente a quarta posição como maior mercado consumidor dos produtos Intel; entretanto seus lançamentos costumam chegar alguns meses após aqueles realizados nos Estados Unidos ou Europa devido ao processo local envolvido na fabricação desses produtos.

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