É seguro confiar no seu smartwatch? Especialistas alertam para precauções necessárias

Indicadores como a frequência cardíaca, a temperatura do corpo e a qualidade do sono são monitorados atualmente por dispositivos vestíveis, conhecidos como wearables, incluindo relógios inteligentes (smartwatches) e anéis tecnológicos. A vasta maioria dos modelos disponíveis no mercado promete realizar esse acompanhamento. Contudo, a questão é: até que ponto podemos confiar nesses dados? A resposta é variável, dependendo do dispositivo em uso. Entre os aparelhos confiáveis, profissionais da saúde alertam para a necessidade de cautela.

Uma conversa com os doutores Gabriel Pires e Sergio Naves revelou insights sobre o uso dos wearables na área da saúde. O doutor Pires é biomédico e professor na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), além de integrar o núcleo de Tecnologia da Academia Brasileira do Sono (ABS). Por sua vez, o doutor Naves atua como cardiologista, intensivista e coordenador médico no Hospital Regional de Piracicaba – Unicamp.

Quando confiar em pulseiras, relógios e anéis inteligentes?

A introdução desses dispositivos na vida dos brasileiros representa uma mudança significativa. O cardiologista Naves descreveu essa transformação como a criação de uma “infraestrutura clínica pessoal”. Ele observou que, anteriormente, a medicina tinha um caráter reativo – os pacientes consultavam os médicos apenas quando apresentavam sintomas. Com a chegada dos wearables, entramos na era da medicina preditiva.

De acordo com Naves, o principal benefício para os médicos reside nos dados contextuais coletados pelos dispositivos, que eliminam o chamado “efeito do jaleco branco”. Ele explicou que muitos pacientes apresentam elevações na pressão arterial ou na frequência cardíaca durante as consultas devido à ansiedade. “Os dados obtidos pelo relógio refletem o comportamento cardiovascular real do paciente em seu cotidiano”, afirmou o intensivista.

Essas informações também são valiosas para construir um histórico clínico mais preciso. “Em vez de tentar recordar quando sentiu palpitações, o paciente pode apresentar um PDF do eletrocardiograma gerado pelo relógio no momento em que teve o sintoma durante a consulta”, exemplificou o coordenador médico.

“Ao iniciar um novo tratamento para arritmia ou hipertensão, os gráficos de frequência cardíaca média e em repouso oferecidos pelo dispositivo ajudam na avaliação da eficácia ao longo das semanas ou meses.”

Doutor Sergio Naves, cardiologista e coordenador médico no Hospital Regional de Piracicaba – Unicamp.

Naves também destacou a importância dos “dados longitudinais” que os dispositivos oferecem. Antes, os médicos tinham apenas uma “foto” do estado do paciente no momento da consulta; agora dispõem de um “filme” abrangendo os últimos seis meses. Isso possibilita ajustes mais precisos nas medicações e identificação de gatilhos para doenças que poderiam ser ignorados em exames isolados.

Wearables podem melhorar seu sono?

Ao procurar por “smartwatch” em lojas online como Amazon, uma infinidade de opções aparece. Especialista em medicina do sono, o doutor Pires aconselha: “não confie automaticamente em qualquer dispositivo só porque promete monitorar seu sono”. Ele acrescenta que as marcas mais renomadas tendem a oferecer melhores monitoramentos.

Pires mencionou quatro marcas que disponibilizam wearables adequados para o acompanhamento do sono: Apple, Fitbit, Garmin e Samsung. Entre seus modelos mais recentes estão: Apple Watch Series 11, Ultra 3 e SE 3; Fitbit Air e Sense 2; Fenix 8 Pro, Venu 4 e Forerunner 570 (Garmin); além dos Galaxy Watch 8, Ultra e Fit 3 (Samsung).

Apesar das ressalvas sobre as limitações dos wearables (que serão detalhadas ao longo deste texto), Pires enfatiza situações nas quais essa tecnologia se mostra útil. Segundo ele, a eficácia depende das métricas utilizadas, do perfil do usuário e da qualidade do aparelho. Os benefícios potenciais incluem:

  • Rastreamento: Embora não substituam diagnósticos clínicos, os wearables funcionam como ferramentas iniciais de rastreio. Se um dispositivo indicar algo alarmante, isso deve servir como um sinal para procurar um especialista em medicina do sono – médico ou outro profissional qualificado;
  • Acompanhamento de grupos específicos: O monitoramento pode ser benéfico para atletas que desejam avaliar seu desempenho ao longo prazo ou trabalhadores noturnos que precisam garantir sua aptidão durante as horas de trabalho;
  • Eficácia em medições diretas: Relógios inteligentes demonstram maior confiabilidade em medições diretas comparadas às relacionadas ao sono – que é um fenômeno complexo e indireto. Por exemplo: muitos dispositivos têm boa capacidade para identificar arritmias cardíacas como fibrilação atrial.

Certa vez, um alerta emitido por um smartwatch levou Robson Oliveira Cardoso, analista de tecnologia de 35 anos residente em São José do Rio Preto (SP), a buscar atendimento médico após receber uma notificação indicando alta frequência cardíaca enquanto se preparava para dormir. Durante a consulta médica, foi diagnosticada uma alteração cardíaca que exigiu internação imediata.

No entanto, quando devemos ter cautela? O biomédico Pires alerta que muitas vezes esses relógios não são precisos: “Eles podem fornecer dados alarmantes sem serem confiáveis.” Por exemplo: alguém usando uma smartband pode ver sua pontuação de sono indicada como 75%. Mas o que significa exatamente essa pontuação? Não há clareza científica sobre isso; cada dispositivo tem seu próprio sistema de pontuação.
Quando se trata de monitorar sono especificamente, as duas principais funções dos smartwatches são acompanhar: 1) estágios do sono; 2) roncos e apneia. “Esses dispositivos não realizam diagnósticos,” salienta Pires. “A tecnologia ainda não avançou tanto.” Portanto, eles servem apenas como instrumentos preliminares com margem significativa para erro.

A probabilidade de erro [dos wearables] é ainda maior entre aqueles com condições clínicas mais sérias.

Doutor Gabriel Pires, biomédico e professor na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Considerações adicionais

Pires reconhece que dispositivos vestíveis podem auxiliar nos tratamentos e acompanhamentos médicos; no entanto, ele faz importantes ressalvas sobre seu uso no monitoramento da saúde e qualidade do sono. Além da qualidade dos aparelhos em si, ele destaca algumas orientações principais:

  • Cuidado com excesso de monitoramento: Para aqueles que dormem bem e não apresentam sintomas relevantes, não há necessidade de monitoramento diário contínuo. O controle excessivo pode gerar ansiedade desnecessária entre indivíduos saudáveis — criando um ciclo conhecido como “ortossônia”, onde a preocupação com dados prejudica ainda mais a qualidade do sono;
  • A importância da avaliação profissional: Nenhum wearable substitui diagnósticos clínicos adequados. Eles devem ser vistos apenas como ferramentas iniciais; se algo alarmante for detectado pelo dispositivo, buscar ajuda profissional é sempre o passo correto;
  • Mantenha-se atualizado: As limitações mencionadas refletem o estado atual da tecnologia. É essencial estar atento às inovações futuras — recursos hoje considerados imprecisos podem evoluir rapidamente com novos lançamentos.

Naves enfatizou: “Os wearables são ótimos para fornecer informações contextuais e preventivas aos médicos e pacientes utilizando dados reais do cotidiano. Contudo, é fundamental manter um equilíbrio mental para evitar que o monitoramento se transforme numa fonte constante de ansiedade.”

A postagem “Posso confiar no meu smartwatch? Médicos respondem (e pedem cuidado)” foi publicada inicialmente por Olhar Digital.

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