Os impactos do fenômeno El Niño na produção agrícola do Brasil

A iminente ocorrência do El Niño promete impactar significativamente a rotina dos agricultores brasileiros. Enquanto os produtores da Região Sul devem se preparar para enfrentar chuvas fortes e um excesso de umidade, outras áreas do país deverão lidar com condições de seca, calor intenso e precipitações irregulares.

Para mitigar esses efeitos adversos, a Embrapa compilou orientações específicas para cada região. Uma das estratégias sugeridas é a utilização do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), que indica os períodos mais adequados para o plantio com base no risco climático associado a cada cultura e localidade.

Precipitações intensas no Sul, aridez em outras regiões

Na parte Sul do Brasil, espera-se que as chuvas sejam mais volumosas e ocorram de forma concentrada entre setembro e dezembro. Esse excesso de água pode resultar em problemas como encharcamento do solo, erosão e perda de nutrientes, além de complicar atividades como semeadura, aplicação de insumos e colheita.

As condições de alta umidade também favorecem o surgimento de doenças nas plantações. Culturas como trigo, arroz irrigado, soja, milho, frutas típicas da região temperada e vegetais estão entre as mais suscetíveis a essas ameaças.

No Centro-Oeste, os estados de Mato Grosso, Goiás e o Distrito Federal enfrentam maior risco de períodos secos, enquanto o sul de Mato Grosso do Sul deve receber um volume maior de chuvas. O intervalo crítico para essas condições é esperado entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

Na Região Nordeste, as preocupações giram em torno da escassez hídrica e das altas temperaturas. No entanto, a situação atual dos reservatórios é melhor do que na crise hídrica enfrentada em 2015/2016; em agosto de 2026, as reservas estavam próximas a 51% da capacidade total, comparadas a cerca de 23% no mesmo mês em 2015.

Já na Região Norte, a diminuição dos níveis dos rios poderá impactar atividades como navegação, transporte e abastecimento de água, assim como a agricultura em várzeas e as práticas pesqueiras. No Sudeste, há previsão de variações climáticas significativas até mesmo dentro dos mesmos estados, com áreas que podem ser afetadas por secas ou chuvas excessivas.

Orientações variam conforme a localidade

As diretrizes propostas pela Embrapa consideram tanto as culturas praticadas quanto as condições específicas de cada região. Entre as recomendações estão:

  • Centro-Oeste: caso haja um atraso significativo na soja, reavaliar o cultivo do milho safrinha e considerar alternativas como sorgo ou milheto que envolvem menor custo e risco.
  • Nordeste: investir na ampliação da captação e armazenamento de água através da construção de cisternas, barreiros-trincheira e barragens subterrâneas.
  • Norte: nos cultivos de arroz em várzeas e áreas baixas, ajustar o calendário do plantio às mudanças do regime das águas e evitar drenagem excessiva.
  • Sudeste: no cultivo do café, é fundamental monitorar especialmente os períodos de floração e enchimento dos grãos que são críticos ao déficit hídrico e ao calor excessivo.
  • Sul: no arroz irrigado, adequar o calendário da semeadura para garantir uma boa drenagem rápida e observar doenças como a brusone.

Práticas conservacionistas minimizam os riscos

A Embrapa sugere que no Centro-Oeste sejam tomadas providências antes que as condições climáticas adversas se manifestem. Para os agricultores do Sul, essa preparação inclui o planejamento das microbacias hidrográficas com ações voltadas à gestão do escoamento da água para amenizar os impactos dos eventos climáticos extremos.

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A preocupação com a preparação é destacada nas orientações dos especialistas. Rodrigo Garcia da Embrapa Agropecuária Oeste enfatiza que investir em tecnologia aliada a práticas conservacionistas pode aumentar significativamente a resiliência das atividades agropecuárias. “Esse investimento junto à adoção de abordagens agrícolas sustentáveis fortalece o sistema produtivo contra desafios climáticos cada vez mais frequentes”, afirma ele.

No Sudeste, essa abordagem foca na preservação da qualidade do solo. Ederson Jesus da Embrapa Agrobiologia ressalta a importância da recuperação das áreas degradadas e do uso eficiente de bioinsumos. Ele afirma que “a prioridade deve ser fortalecer a base biológica dos sistemas produtivos: solo coberto com vegetação adequada, recuperação das áreas danificadas e bioinsumos que auxiliem as plantas a superar períodos críticos como seca ou calor excessivo”.

Diante das diversas condições climáticas nas várias regiões do país, a orientação da Embrapa é adaptar as decisões às particularidades locais das propriedades agrícolas visando minimizar os riscos associados aos extremos climáticos durante o fenômeno El Niño previsto para 2026/2027.

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