Novo tratamento para enxaqueca gera preocupações quanto à segurança na gestação

Um estudo recente revela que uma classe de medicamentos utilizados na prevenção da enxaqueca está ligada a um aumento aproximado de 40% no risco de aborto espontâneo durante as primeiras 20 semanas de gestação. A pesquisa, publicada na revista JAMA Neurology, analisou dados de 7.579 gestações.

A investigação focou em anticorpos monoclonais que inibem o CGRP, uma molécula que desempenha um papel tanto nas crises de enxaqueca quanto em processos cruciais da gravidez. Embora os resultados não comprovem uma relação direta entre os medicamentos e a ocorrência de abortos espontâneos, eles levantam questionamentos sobre a segurança dessas substâncias durante a gestação.

Mecanismo de ação dos medicamentos

Os analgésicos tradicionais nem sempre conseguem aliviar as dores das pessoas que sofrem de enxaqueca. Em 2018, foi introduzida uma nova classe de medicamentos injetáveis como uma alternativa para aqueles que não obtêm melhora com tratamentos orais, incluindo triptanos e ergotamina.

Esses fármacos atuam bloqueando o CGRP, ou peptídeo relacionado ao gene da calcitonina. Essa molécula está envolvida nas crises de enxaqueca e também influencia o fluxo sanguíneo, a implantação do embrião e o desenvolvimento placentário. Essa multifuncionalidade levou os pesquisadores a explorar uma possível ligação entre esses tratamentos e complicações na gravidez.

Descobertas do estudo

O estudo foi conduzido pela epidemiologista Anick Bérard, vinculada ao Centre Hospitalier Universitaire Sainte-Justine, no Canadá. Foram utilizados registros de planos de saúde privados dos Estados Unidos coletados entre os anos de 2018 e 2021.

A análise incluiu mulheres diagnosticadas com enxaqueca ou que haviam recebido prescrição de triptanos ou ergotamina nos seis meses anteriores à última menstruação. Os pesquisadores examinaram quatro anticorpos monoclonais: erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe e eptinezumabe. Também foram comparados os dados com informações sobre o propranolol, outro medicamento utilizado na prevenção da enxaqueca.

Durante as primeiras 20 semanas de gestação, a exposição aos anticorpos monoclonais foi relacionada a um risco aproximadamente 40% maior de aborto espontâneo; por outro lado, não se observou associação semelhante com o uso do propranolol.

No entanto, os pesquisadores enfatizam que o estudo possui um caráter observacional e não pode estabelecer causalidade. Dentre suas limitações estão:

  • A ausência de informações sobre a gravidade das enxaquecas em cada paciente.
  • A incapacidade de verificar se os medicamentos prescritos foram realmente ingeridos.
  • A falta de dados sobre o planejamento das gestações.
  • A concentração da amostra em indivíduos com seguro privado nos Estados Unidos, limitando a generalização dos resultados para outras populações.

Além disso, a própria intensidade da enxaqueca pode influenciar o risco identificado. Portanto, é imprudente atribuir essa associação exclusivamente ao uso dos medicamentos estudados.

Considerações antes da gravidez

Os pesquisadores recomendam novos estudos para investigar a segurança desses medicamentos durante a gestação, incluindo potenciais efeitos no desenvolvimento fetal e na saúde das crianças no longo prazo. Segundo os autores do estudo, o aumento no uso desses tratamentos por mulheres em idade reprodutiva torna essa pesquisa ainda mais urgente.

Enquanto não houver evidências adicionais, é aconselhável discutir com um médico os riscos e alternativas antes de qualquer alteração no tratamento. Para aquelas que planejam engravidar, os achados apontam para a necessidade de dialogar sobre a segurança do uso dos anticorpos monoclonais; contudo, não permitem afirmar categoricamente que esses medicamentos causam aborto espontâneo.

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