O asfalto é uma presença comum em quase todas as áreas urbanas, frequentemente ignorado pelos transeuntes. Contudo, investigações recentes sugerem que, além de elevar as temperaturas nas cidades, esse material pode liberar compostos químicos prejudiciais e deteriorar a qualidade do ar, suscitando preocupações sobre seus efeitos na saúde pública.
A pesquisa sobre essa problemática tem sido conduzida por especialistas como Elham Fini, da Universidade Estadual do Arizona, que há anos estuda o comportamento do asfalto ao longo do tempo. Em dois de seus trabalhos – um publicado na revista Journal of Hazardous Materials e outro na Science of the Total Environment – Fini argumenta que a discussão acerca da pavimentação urbana deve transcender os aspectos climáticos e energéticos, englobando também potenciais consequências para a saúde.
Cidades como Phoenix, nos Estados Unidos, exemplificam a gravidade da situação. Aproximadamente 40% da área urbana é composta por superfícies asfaltadas, como ruas e estacionamentos. Essa extensão contribui significativamente para o fenômeno conhecido como ilha de calor, onde o asfalto absorve calor durante o dia e o libera lentamente à noite, resultando em temperaturas urbanas elevadas mesmo após o pôr do sol.
No entanto, o calor não é o único problema. O betume, uma substância derivada do petróleo presente no asfalto, emite compostos orgânicos voláteis (COVs) constantemente. Essas emissões tornam-se mais intensas em altas temperaturas.
Pesquisas demonstram que esses compostos podem se transformar após a noite cair, gerando partículas ultrafinas que afetam a qualidade do ar. Exposições breves a esses vapores podem provocar tonturas e irritações respiratórias, principalmente em trabalhadores envolvidos diretamente com a pavimentação.
A preocupação cresce quando se considera os efeitos de longo prazo. A exposição contínua está associada a doenças mais graves, incluindo um aumento no risco de câncer de pulmão. Ademais, compostos oriundos de asfalto envelhecido (que se degrada devido ao calor e à luz solar) podem ser ainda mais nocivos.
Essas partículas são suficientemente diminutas para adentrar no corpo humano e potencialmente afetar diversos sistemas orgânicos. Pesquisas iniciais também sugerem impactos neurológicos negativos, especialmente entre grupos mais vulneráveis como idosos.
Alternativas para reduzir os riscos do asfalto tradicional
Apesar das evidências apresentadas, ainda não existe um consenso sobre quais níveis de exposição são considerados perigosos. No entanto, especialistas alertam que essa questão merece uma atenção maior já que muitos desses poluentes não estão incluídos nas medições tradicionais de qualidade do ar.
<pNesse contexto, novas alternativas estão sendo testadas. Uma das propostas envolve integrar algas ao processo de fabricação do asfalto. Em colaboração com especialistas em biotecnologia, Fini criou um método que utiliza algas cultivadas com águas residuais como substituto parcial para o betume.
“Essa abordagem é excelente porque aproveitamos água com altos níveis de nitrogênio e fósforo que seriam descartados. Em vez disso, utilizamos essa água para cultivar mais algas”, afirmou Peter Lammers, envolvido neste projeto inovador.
Testes preliminares mostram que o asfalto enriquecido com algas pode reduzir a toxicidade das emissões em até 100 vezes e também retardar o desgaste da superfície pavimentada. Essa tecnologia já está sendo aplicada experimentalmente em áreas urbanas para avaliação em condições reais.
Os resultados obtidos nas pesquisas indicam uma mudança na percepção: o asfalto deixou de ser apenas um componente funcional e passou a ser considerado um elemento relevante para o clima urbano, qualidade do ar e saúde da população.
