A iniciativa brasileira de xenotransplante, que envolve a doação de órgãos entre diferentes espécies, entrou em uma nova fase, agora direcionada à criação de um plantel de porcos geneticamente modificados por meio de reprodução natural.
Comandada pelo geneticista Ernesto Goulart, da Universidade de São Paulo (USP), esta iniciativa tem como objetivo estabelecer uma linhagem sustentável de animais doadores para o Sistema Único de Saúde (SUS). A previsão é que os primeiros testes clínicos em humanos sejam iniciados por volta de 2030.
Essa mudança na abordagem ocorre após o marco significativo do nascimento de Boreal, o primeiro porco clonado no Brasil, ocorrido em março de 2026, no Instituto de Zootecnia localizado em Piracicaba (SP).
Esse avanço científico surge como uma solução para mitigar a fila de espera por transplantes no país, que atualmente conta com 48,9 mil pessoas, utilizando temporariamente os órgãos suínos como uma espécie de “transplante ponte”, mantendo pacientes vivos até que apareça um doador humano compatível.
Pesquisadores buscam criar linhagem sustentável de porcos doadores através do cruzamento de clones com DNA modificado
Para ampliar a disponibilidade de doadores de maneira economicamente viável, os pesquisadores pretendem formar um plantel com casais de porcos clonados.
Conforme informou o G1, Goulart destacou que a intenção dos cruzamentos convencionais é reduzir a dependência da clonagem. Essa técnica será mantida apenas em momentos cruciais para atualizações genéticas devido ao seu elevado custo, que pode chegar a milhões de reais por procedimento.
“Não é necessário reclonar cada animal e fazer com que cada clone seja um doador. É possível criar alguns pares de clones e, através da reprodução natural, estabelecer esse plantel”, explicou Goulart.
No cronograma do projeto, a meta imediata é produzir o primeiro clone com as dez alterações genéticas necessárias até o final de 2026. O coordenador mencionou que já existem gestações de clones em andamento, incluindo uma porca em Piracicaba que está esperando pelo menos três filhotes, previstos para nascer ainda em junho.
A linhagem escolhida para o estudo apresenta um desenvolvimento rápido e alcança o peso ideal para transplante em sete meses, tornando-se anatomicamente compatível com um humano pesando 80 kg.
O biólogo geneticista Luciano Brito, também da USP, ressaltou as vantagens do porco como a espécie mais adequada. “Os suínos têm características favoráveis em relação ao peso e dimensões dos órgãos, além de grande semelhança anatômica e fisiológica. Eles se reproduzem bem e são domesticados há muito tempo, facilitando sua criação. São animais dóceis e simples de manejar em laboratório”, afirmou.
A infraestrutura necessária para garantir a segurança biológica desses animais já começou a ser implementada, incluindo a inauguração de dois laboratórios na capital paulista. Um dos laboratórios está situado na USP e comporta até dez animais, enquanto o segundo possui um nível 2 de biossegurança, essencial para assegurar que os porcos sejam criados completamente livres de patógenos.
Ainda que o transplante total de órgãos esteja sob análise quanto aos riscos imunológicos e infecciosos, a medicina já utiliza porcos na produção de insulina, válvulas cardíacas e pele para tratamento de queimaduras graves.
Toda essa evolução é resultado das pesquisas iniciadas na década de 1960 sob a liderança do médico Silvano Raia. Segundo Ernesto Goulart, dominar essa tecnologia é crucial para garantir a soberania nacional, evitando a dependência dispendiosa das importações dos Estados Unidos ou da China.
No entanto, a zootecnista Simone Raimundo, do Instituto de Zootecnia, observa que todo o processo desde a clonagem até a aprovação governamental para uso nos hospitais pode levar mais de sete anos.
O post Como vai ser a criação de porcos clonados para doar órgãos a humanos apareceu primeiro em Olhar Digital.
