Cientistas desenvolveram uma ferramenta inovadora capaz de monitorar o “pulso” das cidades por meio de imagens de satélite e tecnologia de inteligência artificial. Essa metodologia permite rastrear transformações urbanas quase em tempo real.
O conceito é semelhante ao funcionamento de um eletrocardiograma. Em vez de apenas mostrar a estética urbana, essa tecnologia oferece uma visão sobre a evolução das cidades ao longo do tempo, conforme explicado pelo Earth.com.
Satélites revelam o ritmo oculto das cidades
Historicamente, urbanistas têm se baseado em dados desatualizados e levantamentos realizados com grandes intervalos para compreender o crescimento urbano. Esse método tradicional revela apenas os resultados finais da urbanização, como áreas já construídas e vias finalizadas.
Recentemente, uma equipe liderada por Zhe Zhu, que ocupa a direção do Laboratório Global de Sensoriamento Remoto Ambiental na Universidade de Connecticut, criou um sistema denominado “Urban Pulse”, ou “pulso urbano”.
Utilizando imagens dos satélites Landsat e Sentinel-2 da NASA, esse sistema é capaz de detectar alterações físicas em bairros inteiros. Ele considera fatores como novas construções, demolições, obras de infraestrutura e a expansão urbana sobre áreas verdes.
Por décadas, nós capturamos apenas os resultados da urbanização — como uma casa nova ou a ampliação de uma estrada. Contudo, não observamos a dinâmica interna de uma área urbana.
Zhe Zhu, diretor do Laboratório Global de Sensoriamento Remoto Ambiental da Universidade de Connecticut.
A base dessa inovação é o método CAPES, que combina aprendizado profundo com análise temporal, desenvolvido pelo pesquisador Ji Won Suh, atualmente professor assistente na Universidade de Victoria, no Canadá.
O crescimento das cidades não ocorre como aparenta
A equipe científica testou a nova ferramenta em seis cidades diferentes: Seattle, Shenzhen, Lagos, Mumbai, Dubai e Cidade do México. Embora cada uma tenha características únicas, todas exibiram padrões semelhantes de crescimento urbano.
O desenvolvimento nas áreas urbanas ocorre em ciclos intensos; há períodos de construção acelerada seguidos por fases mais lentas. Essa nova perspectiva transforma a maneira como as cidades são observadas.
Os pesquisadores descobriram três padrões principais:
- o crescimento urbano se dá em surtos;
- bairros apresentam ciclos de expansão e estagnação;
- diferentes regiões dentro da cidade evoluem em ritmos variados.
Notavelmente, essa falta de sincronia pode até contribuir para que as cidades evitem sobrecargas simultâneas na infraestrutura e no mercado laboral.
A pandemia serviu como um teste claro para essa nova ferramenta. Os dados coletados por satélites mostraram que a redução nas atividades construtivas ocorreu quase como uma “parada cardíaca” global.
Shenzhen conseguiu se recuperar rapidamente após a crise devido a medidas governamentais eficazes. Em contrapartida, Mumbai e Cidade do México apresentaram um retorno mais lento e desigual às atividades normais.
“É semelhante ao que ocorre com os seres humanos”, comentou Zhu. “Quando alguém adoece, os sintomas não se manifestam da mesma forma em todas as pessoas.”
Ferramenta pode auxiliar cidades antes que problemas surjam
A equipe acredita que o Urban Pulse pode atuar como um sistema de alerta precoce para os centros urbanos. Com isso, seria possível detectar indícios de problemas antes que se tornem evidentes para o público geral.
Essa abordagem pode permitir que governos e planejadores urbanos respondam mais rapidamente — possivelmente reduzindo custos associados.
No entanto, o objetivo não é restringir o uso da ferramenta apenas às autoridades. Os pesquisadores têm a intenção de tornar os dados acessíveis ao público em geral.
“Essa será uma ferramenta impactante, influenciando tanto as decisões políticas quanto as escolhas diárias dos cidadãos que circulam por suas cidades,” declarou Zhu.
A pesquisa foi publicada nos Anais da Academia Nacional de Ciências (Proceedings of the National Academy of Sciences) e demonstra como as imagens obtidas via satélite podem desvendar movimentos urbanos quase invisíveis no cotidiano.
