Descubra o “sexto sentido” corporal que pode transformar sua saúde mental

Os cinco sentidos tradicionais são amplamente reconhecidos, mas uma quantidade crescente de estudos sugere a existência de um sexto sentido, frequentemente negligenciado, que pode ser tão crucial para o bem-estar quanto os outros. Esse sentido é conhecido como interocepção, que se refere à habilidade do corpo de perceber e interpretar suas próprias sensações internas.

A interocepção identifica fenômenos que estão sempre presentes, mas que não percebemos claramente: como a frequência do coração, a respiração, a sensação de fome e a temperatura corporal. As psicólogas Jennifer Murphy, da Royal Holloway University of London, e Freya Prentice, do University College London (Reino Unido), destacaram em um artigo publicado em 2022 que, apesar de não darmos muita atenção a esse sentido, ele é fundamental para garantir o funcionamento adequado dos sistemas corporais.

Elas explicaram que esse sentido atua “avisando-nos quando nosso corpo pode estar fora de equilíbrio, como por exemplo nos fazendo buscar água ao sentir sede ou nos alertando para retirar um casaco quando estamos com calor excessivo”.

Além das necessidades biológicas

  • A pesquisa tem começado a explorar que a interocepção transcende a regulação das necessidades biológicas fundamentais;
  • Investigações sugerem uma conexão com problemas de saúde mental como ansiedade, depressão, Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e distúrbios alimentares;
  • A hipótese inicial — ainda em fase exploratória — é que a consciência acerca de sinais como tensão muscular e ritmo cardíaco oferece indícios importantes sobre o estado de segurança ou insegurança em determinadas situações;
  • Quando esse mecanismo é comprometido, pode contribuir para o surgimento dessas condições.

Por exemplo, indivíduos ansiosos podem ter uma percepção exagerada da própria frequência cardíaca durante interações sociais, o que provoca desconforto nessas circunstâncias.

Uma análise realizada por Murphy e Prentice em 2022, com base em 93 estudos diferentes, revelou diferenças notáveis na capacidade interoceptiva entre os gêneros — observando que as mulheres tendem a apresentar menor precisão em tarefas relacionadas ao coração.

As autoras argumentaram que isso pode ajudar a explicar parcialmente por que distúrbios como ansiedade e depressão são mais comuns entre mulheres após a puberdade. No entanto, ressaltam que essa relação é complexa e ainda não totalmente compreendida.

Fome, humor e anorexia

Um estudo recente publicado na revista eBioMedicine analisou o impacto da fome no humor e revelou que indivíduos com uma interocepção mais apurada experimentam menos variações de humor do que aqueles com menor capacidade nessa área.

Nils Kroemer, psicólogo médico da Universidade de Tübingen (Alemanha) e autor principal do estudo, comentou: “Isso não significa que essas pessoas nunca sintam fome — elas apenas parecem ter uma melhor capacidade de manter seus níveis emocionais estáveis”.

Uma pesquisa significativa sobre anorexia nervosa realizada por cientistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) fornece evidências relevantes sobre essa questão.

A hipótese testada sugere que pessoas com anorexia perderam a habilidade de “ouvir” seus próprios sinais internos relacionados à fome. Para investigar isso, os pesquisadores utilizaram uma pílula vibratória ingerível — e os resultados corroboraram essa teoria mesmo em pacientes que já haviam recuperado peso.

Sahib Khalsa, neurocientista da UCLA e autor sênior do estudo, afirmou: “Indivíduos com anorexia nervosa não simplesmente ignoram os sinais corporais. Na verdade, seu sistema nervoso pode processar as sensações intestinais de maneira diferente, dificultando sua detecção e interpretação. Com o passar do tempo, isso pode levar à persistência dos sintomas mesmo após recuperação do peso”.

Um conceito contestado

No entanto, nem todos os estudiosos compartilham um entusiasmo semelhante pelo conceito de interocepção. Um artigo publicado na Frontiers in Psychology em 2024 pelo cientista cognitivo Felix Schoeller do MIT trouxe um título provocador: “Não existe interoceptividade”.

Os autores reconheceram que escolher esse título foi uma estratégia deliberada para atrair atenção; seu argumento central é que muitos pesquisadores podem estar simplificando excessivamente diversos fatores distintos sob o amplo termo desse sexto sentido interoceptivo.

A equipe escreveu: “Embora o título deste artigo seja intencionalmente provocativo, ele visa destacar um problema crítico na área: o termo ‘interoceptividade’ é frequentemente empregado de maneiras que obscurecem a complexidade e diversidade dos fenômenos que se propõe descrever”. Barry Smith da University of London vai além ao afirmar que os seres humanos poderiam ter até 33 sentidos diferentes.

Apesar das divergências conceituais existentes entre os pesquisadores, Murphy e Prentice concluíram que “compreender melhor todos os fatores envolvidos na capacidade interoceptiva pode ser essencial para futuramente desenvolver tratamentos mais eficazes para diversas condições relacionadas à saúde mental”.

Deixe um comentário