Um grupo de renomadas instituições brasileiras está progredindo no desenvolvimento de vacinas nacionais que empregam a tecnologia de RNA mensageiro. O projeto principal em curso visa criar uma imunização própria contra a Covid-19, servindo como um modelo para o enfrentamento de outras doenças. Essa iniciativa não apenas fortalece a ciência no Brasil, mas também proporciona maior autonomia à saúde pública do país no futuro.
A técnica conhecida como RNA mensageiro (RNAm) atua como um guia temporário para as células humanas. Para exemplificar esse funcionamento, Warlen Pereira Piedade, um especialista em biologia molecular e genética que leciona na Faculdade de Medicina de Bauru da Universidade de São Paulo (FMBRU-USP) e já foi pesquisador de pós-doutorado na Escola de Medicina da Universidade de Harvard (HMS), nos EUA, utiliza uma analogia culinária.
Em conversa com Olhar Digital, Piedade comparou o DNA a um valioso livro de receitas guardado em um cofre, do qual não pode ser retirado. Para produzir proteínas, a célula faz uma cópia da receita necessária e a envia para a “cozinha” celular (citoplasma). Ele explica: “O livro de receitas seria o DNA. A cópia feita da receita é o RNA mensageiro”, acrescentando que “o bolo em si representa nossa proteína”.
Diferente das vacinas convencionais que introduzem o vírus inteiro ou atenuado no organismo, a vacina baseada em RNAm fornece apenas uma instrução genética para que as células produzam uma única proteína inofensiva presente na superfície do vírus.
Após receber essas orientações genéticas, a célula humana fabrica a proteína viral e a apresenta em sua superfície. O sistema imunológico reconhece essa proteína como um corpo estranho e inicia a produção de anticorpos para combatê-la. Piedade ressalta que as células do sistema imunológico identificam a proteína viral gerada como invasora e “produzirão anticorpos e células de memória que lembrarão dessas proteínas como algo prejudicial”. Assim, se o indivíduo for exposto ao vírus real futuramente, seu corpo estará preparado para se defender rapidamente.
Segurança e preservação do DNA humano
O biólogo afirma que as vacinas de RNAm são totalmente seguras e não afetam o código genético humano. As formulações passam por “rigorosos ensaios clínicos e controle das agências regulatórias”, o que garante que não há risco de alteração genética. “Como se trata de RNA mensageiro, ele não pode acessar o núcleo celular. Permanece apenas no citoplasma e é utilizado exclusivamente como uma receita”, afirma Piedade. Em outras palavras, o material genético enviado pela vacina fica restrito ao citoplasma e não penetra no núcleo celular, onde está localizado nosso DNA.
Ademais, a molécula de RNAm é extremamente vulnerável e é destruída pelo próprio organismo algumas horas após desempenhar sua função educativa. O especialista acrescenta que “é impossível que essa vacina cause uma doença, pois ela não contém nenhuma parte real do vírus”, apenas uma proteína isolada.
A primeira vacina desenvolvida no Brasil utilizando esse método é uma formulação contra a Covid-19 criada pela Fiocruz, destinada inicialmente como dose de reforço. Segundo informações do Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já autorizou o início dos estudos com voluntários. Esta fase inicial dos testes clínicos é crucial para verificar se a resposta imunológica gerada pelo corpo é eficaz e segura. Piedade observa que após essa etapa inicial, ainda serão necessárias as fases 2 e 3 para validação em grande escala. Ele acredita que levará “um tempo até que o imunizante seja finalizado e produzido em larga escala para passar por todo o processo de aprovação na Anvisa e estar disponível no SUS”.
A inovação das vacinas baseadas em RNAm reside na sua capacidade adaptativa. O especialista destaca que uma das principais vantagens sobre os métodos tradicionais é “a rapidez e versatilidade na produção”, já que esse processo é inteiramente sintético.
Caso uma nova variante do coronavírus apareça no futuro, os cientistas não precisarão reformular todo o processo industrial; basta alterar o código genético contido nas instruções da vacina. Como Piedade explica, essa modificação “é planejada via computador”, permitindo utilizar os mesmos equipamentos e instalações para criar uma nova versão em poucas semanas ou meses.
Como o Brasil amplia o uso de vacinas de RNAm
Além da Fiocruz, outros centros importantes estão envolvidos nessa corrida tecnológica no Brasil. O Centro de Competência em Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais investiga as aplicações do RNAm para combater enfermidades como dengue, malária, leishmaniose e Doença de Chagas. Piedade enfatiza que essa tecnologia versátil pode ser aplicada praticamente contra qualquer patógeno, incluindo “o vírus da influenza, da gripe, da dengue, da raiva, do HIV até mesmo do Zika”.
O projeto mineiro também está criando metodologias para desenvolver imunoterapias avançadas focadas no tratamento de diversos tipos de câncer. Segundo Piedade, já existem testes sendo realizados com essa abordagem: “Você analisa cada caso específico de câncer e fornece um medicamento personalizado que ensina ao sistema imunológico como reconhecer e eliminar as células cancerígenas,” promovendo assim uma medicina cada vez mais direcionada ao paciente.
Simultaneamente, o Instituto Butantan está estabelecendo uma infraestrutura própria para fabricar vacinas baseadas em RNAm, com foco inicial nos imunizantes contra raiva e coronavírus. A ampliação dessas pesquisas por diferentes centros transforma conhecimento científico em soluções práticas para a saúde pública brasileira, preparando o país para responder rapidamente às emergências sanitárias nos próximos anos.
