Ebola se espalhou por semanas no Congo antes de soar o alarme mundial

O surto do vírus Ebola na República Democrática do Congo se arrastou por semanas antes que as autoridades oficialmente reconhecessem a situação e a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarasse uma emergência de saúde pública de alcance global. Quando o anúncio ocorreu, centenas de casos suspeitos já estavam sendo investigados, assim como várias mortes.

Relatos indicam que esse atraso na resposta aconteceu apesar do Congo ter estabelecido sistemas de vigilância focados na detecção precoce de surtos. Nos últimos anos, o país investiu em sua infraestrutura laboratorial e adquiriu experiência devido a epidemias anteriores do Ebola.

Problemas na vigilância comprometeram a reação

Na província de Ituri, onde o surto é mais intenso, as autoridades não emitiram alertas quando indivíduos começaram a apresentar sintomas que poderiam indicar a doença. Além disso, as amostras coletadas podem não ter sido enviadas com agilidade para Kinshasa, a capital, onde exames mais detalhados eram realizados.

A variante do vírus identificada no surto é conhecida como Ebola Bundibugyo, uma forma rara da doença. Os equipamentos disponíveis em Ituri estavam configurados apenas para detectar a variante comum chamada Zaire, resultando em testes iniciais negativos.

Após o envio das amostras para Kinshasa, as autoridades conseguiram confirmar a presença da variante Bundibugyo.

OMS destaca atraso significativo

A epidemiologista Marie-Roseline Belizaire, que lidera a resposta da OMS ao surto, admitiu que o alerta foi dado tardiamente. Ela comentou que normalmente um grande número de casos é identificado rapidamente por profissionais de saúde ou pela mídia. “O alerta foi muito atrasado”, declarou Belizaire.

A OMS identificou uma “lacuna crítica de quatro semanas” entre o surgimento dos sintomas no primeiro caso suspeito e a confirmação laboratorial do surto. A organização observou que os médicos podem ter confundido os sinais com outras doenças.

Além disso, foi relatado que quatro profissionais de saúde perderam a vida em um período de quatro dias no Hospital Geral de Referência de Mongwalu.

Desafios enfrentados na contenção da epidemia

Médicos envolvidos na resposta local afirmam que o epicentro da epidemia está localizado em Mongwalu, uma cidade mineradora com acesso complicado durante as chuvas. A presença de grupos armados na região torna os deslocamentos e as operações de saúde ainda mais difíceis.

Bill Kanyenche, médico vinculado à organização congolesa GRACE, afirmou que o reconhecimento oficial do surto deveria ter ocorrido aproximadamente 30 dias antes. Ele relatou que mortes com sinais da doença ocorreram sem que tanto as comunidades quanto os profissionais conseguissem identificar inicialmente os sintomas como sendo Ebola.

A OMS acrescentou que indivíduos infectados possivelmente viajaram e participaram de funerais por pelo menos um mês antes do reconhecimento formal do surto.

Preocupação com variante rara

Atualmente, não existem vacinas nem tratamentos específicos disponíveis para a variante Ebola Bundibugyo. Além disso, os testes aplicáveis em campo são limitados.

Jean Kaseya, diretor do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças, expressou estar em “modo pânico” diante dessa situação alarmante.

A taxa de mortalidade associada à variante Bundibugyo pode chegar até 50%, conforme informou o ministro da Saúde do Congo. Anteriormente, apenas outros dois surtos dessa variante foram registrados: um em Uganda em 2007 e outro no Congo em 2012.