Fatores como sobrepeso, sedentarismo, uso de tabaco, consumo excessivo de álcool, a decisão de ter filhos após os 30 anos e a faixa etária acima dos 40 são frequentemente associados a diagnósticos de câncer de mama. Este câncer é o segundo com mais casos registrados no Brasil, perdendo apenas para o câncer de pele, conforme informações do Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Entretanto, não se encaixar nesse perfil de risco não deve levar à negligência. O relato da influenciadora digital e relações-públicas Leticia Prates evidencia que a enfermidade pode atingir mulheres mais jovens que não se encaixam nas estatísticas tradicionais.
“Recebi o diagnóstico aos 25 anos e venho aqui para afirmar que uma em cada oito mulheres terá ou já teve câncer de mama”, afirmou Letícia, que também leciona, em entrevista ao Olhar Digital. “Esse número é alarmante, e a incidência entre jovens vem crescendo cada vez mais.”
Letícia relata que, por sua pouca idade ao notar um pequeno nódulo em seu seio esquerdo, a primeira médica que a atendeu — sua ginecologista desde a adolescência — descartou a possibilidade de um tumor. “Ela disse brincando: ‘não seja hipocondríaca’, tentando me tranquilizar enquanto eu insistia na remoção do caroço”, relata. “Após muito insistir, ela concordou em realizar uma cirurgia para retirar aquele nódulo que continuava crescendo. Durante o procedimento, o patologista identificou que se tratava de câncer e solicitou exames adicionais. Em quinze dias, recebi o diagnóstico confirmando um carcinoma invasivo grau 2.”
Letícia lembra que estava tão ansiosa para se livrar do câncer que não teve tempo para refletir sobre as consequências estéticas da cirurgia. “Estava tão nervosa para eliminar aquela doença que tirei um peso das minhas costas”, recorda. “Em seguida, fiz a reconstrução.”
“É claro que ninguém deseja perder parte do corpo jovem — especialmente as mamas — mas é fundamental manter a autoestima e o amor próprio independentemente da aparência física”, enfatiza Letícia. “Ser ‘gostosa’ é algo que vem de dentro e não está restrito ao formato do corpo.”
“Graças aos avanços da ciência e ao SUS”
Após passar por diversos ciclos de tratamento como quimioterapia e radioterapia, além de enfrentar metástases nos ossos e linfonodos, Letícia tem 38 anos e afirma estar completamente “zerada”. “Continuo livre da doença graças aos avanços científicos e ao SUS (Sistema Único de Saúde).”
“Atualmente, 95% dos casos de câncer de mama são curáveis quando detectados precocemente. Portanto, você tem uma chance significativa — 95% — de sobreviver com os novos tratamentos disponíveis”, destaca Letícia. Ela acrescenta que o câncer deve ser encarado como uma doença crônica semelhante à diabetes ou hipertensão; embora não tenha cura definitiva, é possível mantê-lo inativo durante muitos anos. “Hoje sou muito mais saudável do que antes; cuido melhor da minha alimentação e pratico exercícios regularmente,” diz.
A influenciadora enfatiza ainda a relevância do autoexame das mamas: “O autoexame é essencial para conhecer seu próprio corpo e identificar qualquer alteração rapidamente. Contudo, ele não substitui a mamografia ou ultrassom anuais; eu diria que não espere chegar aos 40 anos para começar esses exames.”
Por que têm aumentado os casos de câncer entre adultos mais jovens?
O aumento significativo nos diagnósticos de câncer entre adultos jovens representa uma preocupação global em saúde pública. Em diversas nações, indivíduos na fase produtiva enfrentam diagnósticos precoces relacionados a tumores em diferentes partes do corpo.
Conforme o Oncoguia aponta, houve um crescimento alarmante de 79% nos novos diagnósticos anuais entre pessoas com menos de 50 anos nos últimos 30 anos.
Dados coletados pelo Painel Oncologia do DataSUS evidenciam essa tendência no Brasil: registros da doença entre jovens com idades entre 18 e 50 anos aumentaram em impressionantes 284% na última década. Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) preveem cerca de 781 mil novos casos anualmente no país, com um aumento acentuado nos tipos tumorais como os de mama, intestino, próstata e estômago entre os mais jovens.
Esse crescimento global tem levado especialistas da saúde a investigar hábitos contemporâneos, exposições ambientais e variações genéticas. O foco atual das organizações médicas é compreender as alterações na biologia e no ambiente das novas gerações visando aprimorar estratégias preventivas.
Fatores de risco conhecidos e novos hábitos
O aumento nas taxas globais está intimamente relacionado às mudanças significativas no estilo de vida observadas nas últimas décadas. A disponibilidade crescente de alimentos ultraprocessados aliada ao sedentarismo contribui para processos inflamatórios constantes no organismo humano, favorecendo alterações celulares prejudiciais.
Maria Del Pilar Estevez Diz, médica especializada em Oncologia D’Or e coordenadora da Oncologia Clínica no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), alerta sobre as transformações urbanas ocorridas no Brasil desde os anos 1950 que alteraram a exposição da população a agentes ambientais nocivos desde seu nascimento.
“A exposição a disruptores endócrinos presentes em plásticos e produtos químicos pode modificar hormônios naturais”, explica a especialista em entrevista ao Olhar Digital. “Os microplásticos podem provocar inflamações crônicas no organismo.”
Além disso, fatores como distúrbios no sono causados pela luz artificial e pelas telas eletrônicas complementam essa problemática. A alimentação inadequada se destaca como um dos principais fatores desse cenário preocupante; o alto consumo de produtos ultraprocessados ricos em açúcares e gorduras junto à falta de atividade física cria um ambiente metabólico favorável à formação tumores.
Particularidades do câncer em pessoas jovens
Pesquisadores ao redor do mundo buscam compreender se os tumores diagnosticados em indivíduos mais jovens apresentam características mais agressivas ou se comportam diferentemente daqueles encontrados em pessoas mais velhas.
Maria Pilar ressalta que manifestações da doença fora da faixa etária comum tendem a trazer desafios biológicos maiores. “De maneira geral, tumores diagnosticados fora da faixa etária esperada costumam ser mais agressivos”, observa ela. Isso inclui tumores típicos dos idosos quando surgem em pessoas mais jovens; semelhantemente ocorre com tipos comuns na infância quando aparecem na vida adulta.
Em muitos tipos cancerígenos, as respostas aos tratamentos convencionais como quimioterapia são semelhantes independentemente da idade na hora do diagnóstico; entretanto no caso específico do câncer de mama observa-se uma maior incidência dos subtipos agressivos entre mulheres jovens.
Mudanças nos padrões reprodutivos — como ter filhos após os 35 anos ou amamentar por períodos reduzidos — aumentam o tempo exposto ao estrogênio. Além disso, fatores como consumo alcoólico elevado e predisposições genéticas devido a mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 intensificam esses riscos.
Apesar disso tudo, Letícia exemplifica como evoluiu o tratamento médico mesmo diante duma condição metastática (quando o câncer se espalhou). Ela compartilha estar em remissão desde fevereiro de 2019 sem qualquer sinal da enfermidade presente.
Acompanhada pelo Dr. Fernando Maluf, diretor do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital Beneficência Portuguesa e membro da equipe médica do Hospital Israelita Albert Einstein em São Paulo, Letícia obteve sucesso com tratamentos inovadores capazes até mesmo de reverter quadros considerados incuráveis pela literatura médica.
“Faço parte desse seleto grupo metastático que conseguiu se curar. Eu estou curada”, celebra ela entusiasticamente. Para aqueles interessados em ouvir mais sobre sua inspiradora trajetória contra o câncer pode buscar pela hashtag #cancerjovem nas redes sociais para conversar com Letícia Prates.
