Uma abordagem inovadora que já demonstrou eficácia no tratamento de certas formas de câncer hematológico agora pode ser a chave para uma nova estratégia contra o HIV. Em breve, pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) compartilharão os resultados de um ensaio clínico em que dois indivíduos conseguiram reduzir a presença do vírus a níveis indetectáveis após receberem uma única infusão de suas células imunológicas, previamente modificadas em laboratório. As informações serão apresentadas na próxima conferência da Sociedade Americana de Terapia Gênica e Celular, que ocorrerá em Boston.
O processo inicial envolve a extração das células de defesa do próprio paciente. Essas células são então geneticamente alteradas para que possam identificar e atacar o HIV. Após serem cultivadas, elas são reintegradas ao organismo do paciente através de uma infusão única.
No decorrer do estudo, os participantes suspenderam o uso dos medicamentos antirretrovirais — fundamentais para controlar o vírus — após receberem a infusão. Mesmo sem a administração dos remédios, os níveis do HIV se mantiveram indetectáveis, com um dos pacientes chegando a completar dois anos nessa condição.
Pesquisa tem potencial para transformar tratamento do HIV
O médico Steve Deeks, responsável pela pesquisa, qualificou os achados como “uma inspiração e um possível guia” para o desenvolvimento de uma cura funcional. Embora essa forma de tratamento ainda não esteja acessível ao público em geral, o estudo indica que a terapia celular, já bem-sucedida no combate a leucemias e linfomas, pode ser adaptada para tratar infecções virais persistentes.
Dr. James Riley, imunologista da Universidade da Pensilvânia, comentou que o câncer continuará sendo o campo líder nessas tecnologias devido à “enorme necessidade médica não atendida”, mas acredita que essas inovações eventualmente beneficiarão as pesquisas sobre o HIV.
Ao longo das últimas quatro décadas, o tratamento do HIV evoluiu significativamente, transformando-se de uma sentença de morte em uma condição gerenciável com medicamentos diários ou injeções mensais. O próximo desafio é encontrar uma cura funcional — que elimine completamente o vírus ou mantenha sua remissão permanente sem necessidade de medicação contínua.
Leia mais:
- HIV: quais são as formas de transmissão e como se proteger?
- É verdade que existem pessoas imunes ao HIV? Compreenda os dados científicos
- Por que não conseguimos erradicar o HIV mesmo após tratamento?
Este novo estudo se junta a outros resultados encorajadores apresentados anteriormente neste ano pelo Children’s National Hospital, que evidenciou a diminuição dos reservatórios ocultos do HIV em seis pacientes adultos por meio de uma abordagem similar utilizando células T específicas para o vírus.
Ainda no início da pesquisa, os cientistas advertem que pode levar anos até que uma terapia desse tipo esteja amplamente disponível. Contudo, essa “prova de conceito” trouxe um novo sopro de esperança: a mesma engenharia celular capaz de salvar vidas no tratamento do câncer pode um dia permitir que pacientes vivam sem a obrigação diária de tomar medicamentos para o HIV.
