Pesquisa associa distúrbios do sono à inflamação cerebral

Desvios nos padrões de sono podem causar alterações permanentes no cérebro, mesmo após um retorno a horários regulares. Essa conclusão é fruto de uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Texas A&M, nos Estados Unidos, que detectaram indícios persistentes de inflamação e diminuição das capacidades cognitivas em camundongos que passaram por mudanças frequentes no ciclo natural de luz e escuridão.

A investigação foi liderada pela pesquisadora Karienn A. de Souza, com a colaboração de David Earnest. O objetivo da equipe era entender se a interrupção dos ritmos circadianos poderia acelerar o declínio cognitivo associado ao envelhecimento. Os resultados desse estudo foram divulgados na revista científica The Journal of Neuroinflammation.

Efeitos cognitivos duradouros após restabelecimento

Para simular um cenário semelhante às dificuldades enfrentadas por trabalhadores em turnos rotativos, os pesquisadores desenvolveram um modelo experimental com camundongos. Durante 80 dias, logo no início da vida adulta, um grupo teve seu ciclo de iluminação alterado em 12 horas a cada cinco dias, enquanto o grupo controle manteve um ciclo constante.

Após esse período inicial, os animais retornaram a uma rotina regular por aproximadamente sete meses. Quando atingiram a meia-idade, correspondente a cerca de 13 ou 14 meses de vida dos camundongos, ambos os grupos foram submetidos a testes para avaliar suas habilidades cognitivas.

Aqueles que vivenciaram a desregulação circadiana mostraram dificuldades significativas no labirinto de Barnes, um teste projetado para medir a memória espacial. Esses animais percorreram distâncias maiores e cometeram mais erros ao tentar encontrar a saída, apresentando resultados semelhantes aos de camundongos mais velhos.

Os pesquisadores ressaltam que esses achados são preocupantes, uma vez que as avaliações ocorreram meses após o retorno a um ciclo regular. A interrupção do ritmo circadiano durante o início da vida adulta parece ter antecipado o declínio cognitivo em comparação com aqueles mantidos em ritmos estáveis.

Sistema imunológico em estado inflamatório

Para elucidar os mecanismos subjacentes, a equipe analisou o sistema imunológico dos camundongos. Aqueles expostos à desregulação circadiana apresentaram cerca de 40% mais células B no baço, que são fundamentais na resposta imune.

Além disso, foi constatado um aumento nos marcadores relacionados à ativação e inflamação dessas células. Em contrapartida, notou-se uma quantidade reduzida de marcadores associados à função anti-inflamatória. Também houve uma diminuição nas células T reguladoras, que desempenham papel crucial no controle das respostas imunes excessivas.

A análise revelou uma correlação entre esses sinais inflamatórios e o desempenho cognitivo: quanto maior o número de células B observadas, piores foram os resultados dos animais nos testes de memória. Esse padrão persistiu mesmo meses depois do restabelecimento do ciclo normal de iluminação.

Mudanças na microglia cerebral

Os cientistas também notaram um aumento na proporção de células B inflamatórias nas membranas que envolvem os cérebros dos camundongos submetidos à desregulação circadiana.

No hipocampo, área relacionada à memória espacial, verificaram-se alterações na microglia — as células imunológicas residentes do cérebro. Normalmente, essas células apresentam prolongamentos finos e ramificados que ajudam na vigilância do tecido cerebral. No entanto, nos animais do grupo experimental, essas células apareceram maiores e com formas arredondadas e ramificações adicionais concentradas ao redor do corpo celular.

Os pesquisadores caracterizam esse quadro como um estado chamado “pré-ativação por estresse” (“stress-primed”). Apesar do aumento na quantidade dessas células, sua morfologia sugere uma alteração em relação ao padrão normalmente associado à manutenção da saúde cerebral.

Implicações para prevenção da demência

Pesquisas anteriores já estabeleceram conexões entre alterações similares na microglia e o acúmulo de resíduos celulares e proteínas anormais no cérebro. Contudo, os autores deste estudo enfatizam que as imagens analisadas mostram apenas a aparência das células e não revelam como elas estão funcionando no tecido cerebral.

Segundo Souza, aproximadamente 97% do risco para Alzheimer está relacionado a fatores ambientais, não sendo exclusivamente determinado pela genética. Nesse sentido, manter uma boa regularidade no sono pode ser tão importante quanto hábitos como alimentação saudável e prática regular de exercícios físicos ao longo da vida.

As descobertas sugerem que alterações prolongadas nos ritmos circadianos durante o início da vida adulta podem levar a um estado inflamatório crônico. Atualmente, os pesquisadores estão investigando se partículas derivadas de células-tronco podem prevenir essa ativação da microglia associada ao estresse para atuar sobre a inflamação antes que sinais claros do declínio cognitivo se manifestem.

Embora esta pesquisa tenha sido realizada com camundongos, seus resultados oferecem insights valiosos sobre os mecanismos relacionados às alterações do sono e ao envelhecimento cognitivo também estudados em humanos.