Uma pesquisa recente indica que cabecear uma bola de futebol uma única vez pode ser o suficiente para liberar temporariamente proteínas no sangue, que estão ligadas ao dano cerebral. O estudo analisou seis proteínas e constatou que, em relação a duas delas, os níveis aumentaram de maneira proporcional à frequência e à intensidade das cabeceadas realizadas pelos atletas.
Proteínas como marcadores de lesão cerebral
A investigação, divulgada no dia 18 de maio na revista JAMA Neurology, foi realizada por pesquisadores do Centro Médico Universitário de Amsterdã, na Holanda. O foco da análise foram jogadores amadores de futebol que cabecearam a bola durante as partidas. Os resultados mostraram que a proteína S100B estava presente em concentrações mais elevadas no sangue desses jogadores logo após os jogos, quando comparados àqueles que não realizaram cabeceios.
A proteína S100B é produzida majoritariamente por células estreladas conhecidas como astrócitos, sendo um indicador comum para avaliar lesões cerebrais traumáticas. Normalmente, os níveis dessa proteína aumentam dentro de uma hora após a ocorrência de um trauma cerebral.
Relação com a doença de Alzheimer
Aqueles que efetuaram mais de duas cabeceadas ou realizaram múltiplos impactos intensos experimentaram um aumento imediato nos níveis da proteína chamada p-tau217, que é um dos biomarcadores mais relevantes para a doença de Alzheimer.
A proteína tau desempenha um papel crucial na estabilização da estrutura interna dos neurônios. Entretanto, quando exposta a estresse mecânico nas conexões neuronais, ela se desliga, permitindo que enzimas alterem sua forma, originando diversas variantes, incluindo p-tau217.
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Recuperação temporária com preocupações persistentes
- A pesquisa revelou que os níveis de p-tau217 e S100B retornaram aos patamares normais entre 24 e 48 horas após as partidas; no entanto, os autores ressaltam que isso não descarta a possibilidade de danos permanentes.
- Samantha Bureau, diretora executiva assistente da Concussion Legacy Foundation Canada e não envolvida no estudo, afirma: “As evidências até aqui indicam que lesões cerebrais podem ocorrer devido às cabeceadas no futebol, tanto a curto quanto a longo prazo.”
- A análise incluiu amostras sanguíneas de 302 jogadores amadores masculinos de futebol em nível superior, coletadas ao longo de 11 partidas — antes do jogo, imediatamente após e entre 24 e 48 horas depois.
- Câmeras foram utilizadas no estudo para registrar a quantidade de vezes que cada jogador cabeceou a bola e estimar a intensidade das cabeçadas.
Consequências para o futuro do futebol
Cientistas levantam a possibilidade de que os efeitos das cabeceadas possam se acumular com o passar do tempo, contribuindo para o surgimento de dificuldades neurodegenerativas. Um estudo realizado em 2025 concluiu que anos expostos a traumas repetidos na cabeça podem resultar na morte neuronal e provocar inflamação cerebral.
Peter Theobald, engenheiro médico da Universidade de Cardiff e não participante do estudo, comentou ao site Live Science sobre as ações das federações esportivas: órgãos dirigentes do futebol têm reduzido as cargas permitidas para cabeceios durante os treinos, mesmo diante da falta de provas definitivas sobre os riscos associados a longo prazo.
